Estou andando. Talvez sem rumo, mas continuo seguindo sem saber aonde isso irá me levar. Tropeço algumas vezes pelo caminho, mas sou distraída. Estou distraída com essa vasta imensidão que me cerca e todas as possibilidades que nela existem. São tantas. Me sinto perdida, e... Caramba, tropecei! Dessa vez eu caí. Caio lentamente. A queda é grande e eu conto 5 segundos antes de atingir o chão. A contusão nas minhas costas me faz demorar para levantar.
Massageio minha nuca e mexo o pescoço como quem diz não. Fico em pé e vejo que minha roupa não está suja. Já estiveram aqui antes. Afinal, onde estou? Olho para os lados tentando me localizar. Nada. Minha nuca dói. Acho que cortei a cabeça. Passo a mão para conferir e vejo alguns pontos de sangue nela, porém não dou importância.
Dou alguns passos incertos pela frente e respiro fundo. Acho que encontrei um caminho. Será que devo prosseguir ou apenas voltar para o lugar de minha queda, gritar algumas palavras de socorro e esperar alguém passar por ali e me ouvir?
Hesito. Passos, agora cuidadosos, caminham sem pressa para que não hajam mais quedas inesperadas. Tateio a parede em buscar de algo e torço para não haver insetos. Odeio insetos. Acho que encontrei algo. Minhas mãos deslizam por entre aquilo que me parecem ser escritas. Tento acompanhar o movimento de cada letra com o dedo e formar alguma palavra na cabeça. Por quê eu já sei o que está escrito? Continuo a passar os dedos pelas letras encravadas naquela parede, agora num ritmo acelerado. Minha respiração está ofegante e minha cabeça dói. Reconheço até escritas de minha autoria. Eu já li isso. Eu já escrevi isso. Eu... Eu já estive aqui antes.
Paro por um momento e olho ao redor. As paredes estão revestidas de palavras que meus olhos estão cansados de ler. Só eu sabia o desgaste que aquelas frases haviam causado em mim e em como eu estava farta delas. Alguma coisa caiu no meu olho. Poeira, talvez? Tento olhar para cima para ver se consigo identificar o lugar de onde aquilo estava vindo. Um buraco se abriu e deixou entrar luz pela sua pequena espessura.
Ouço sons. Vozes talvez. Não consigo entender o que dizem. Acho que é porque estão sussurrando. Cantarolam músicas que conheço e recitam aquelas palavras que revestem as paredes ao meu redor. Estou farta. Desses sons. Desses sussurros e até mesmo dessas músicas. Estou farta desse lugar. Não entendo o incomodo repentino, mas sei que não quero continuar aqui.
Recuo. Sinto vontade de gritar por socorro. Minha voz ecoaria alto o suficiente para atravessar o pequeno buraco que se abriu em cima de mim? Solidão. Me sinto só. As vozes sumiram e o raio de luz se apagou. Estou cercada de coisas que conheço, mas nunca me senti tão perdida. Dou passos desesperados em qualquer direção. Não quero mais ficar aqui. Me sinto sufocada.
Viro a esquerda. Vejo um feixe de luz e o alivio toma conta do meu corp... Não! Eu andei em círculos? O que estou fazendo aqui de novo? Viro a direita. Continuo andando. Talvez esteja correndo. Meus pés se movem rápido demais. Não querem mais tocar esse chão. E então, eu me sento. Fecho minhas mãos e as aproximo do meu peito. Minha respiração está ofegante. Minha cabeça dói.
Num gesto desesperado, olhar para cima parece ser minha única opção. Peço que as vozes voltem para que eu não me sinta tão só. Ouço um leve cantarolar e me sinto aconchegante. Elas, agora, me fazem tão bem. E num piscar, eu recobro a consciência de que esse não é o meu lugar. Fora um dia, mas agora não é mais. Eu pertenço a outra queda e não a essa.
Comodismo nunca foi meu forte, portanto eu preciso sair daqui antes que me acostume com esse lugar. Me levanto e olho para os lados. Eu conheço aqui. Conheço como a palma de minha mão. Tenho certeza. Meu corpo esta em êxtase. E então eu corro. Corro como quem está prestes a alcançar a linha de chegada. No meu caso, a de partida. A linha que me tiraria desse lugar. Que me levaria de volta para minha imensidão. É bem mais perigoso lá, onde eu não conheço nada. Me ponho em risco extremo. Adrenalina. Êxtase. É isso que meu corpo pede. É disso que ele precisa. Vejo algo. A luz machucas meus olhos. Entro sem saber aonde irá me levar. O alívio é que toma conta de cada parte de mim. Enfim, estou andando.